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Cinema

“De canção em canção” é um espetáculo visual

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A crítica a seguir foi feita por mim (João Victor Lopes) e pela redatora do Geração Z, Livia Corcino. As partes do texto em que estiverem em itálico foram escritas por mim. Já as partes em negritos são de autoria da Livia.

De canção em canção é um filme que conta a história de, teoricamente, dois casais que tem seus destinos entrelaçados na cidade de Austin, em meio a um universo de músicas, shows, busca do reconhecimento popular e, principalmente, de uma identidade própria. Apesar do filme aparentemente ser uma narrativa romântica um tanto quanto não-tradicional, o que vemos aqui é uma espécie de longa dotado de um quê muito filosófico e íntimo, que retrata, acima de tudo, a vida e a cabeça da personagem Faye (Rooney Mara).

Dirigido pelo estadunidense Terrence Malick, famoso por “Além da linha vermelha (1998) e “Árvore da Vida” (2011), o filme é impregnado pelo estilo de fotografia e montagem bem próprio do diretor. Em alguns momentos, poderíamos dizer que há até referências ao longa de 2011.

Faye é uma jovem conflituosa que busca crescer e experimentar tudo o que a vida tem de oferecer, segunda a mesma. No começo do filme, nos deparamos com uma narração em voz off (aquela que nos situa do tempo e do espaço, das emoções que se sobrepõe às ações das personagens) da mesma, que nos revela seus desejos, seus medos, suas impressões. Tudo parece muito austero, uma vez que Faye está solidamente decidida e viver intensamente, passar por todas as experiências.

Passar muito tempo em Faye, talvez seja um dos problemas do longa. Não que a história da protagonista seja ruim, ela é ótima, mas os personagens secundários não nos engajam nem a metade do que a nossa protagonista faz. A sensação é de que quando há essa mudança de foco, de que ficamos desesperado para que o filme volte para Faye, dando menos importância narrativa e emocional para os outros personagens.

Com o passar do longa, ocorre então o começo da construção da trama, que é feita de uma maneira tão sutil e por vezes complexa (auxiliada, logicamente, pela parte técnica singular , ou nem tão singular assim), que por muitas vezes a sensação de que fica é de para onde aquilo tudo vai. Mas com o decorrer da produção, é como se as subtramas, os personagens e as ideias se alinhassem gentilmente e formassem algo que, no início, parecia confuso, mas agora tem formato e sentido bem determinados.

Partindo desse pressuposto, estamos aqui diante de um grande filme, construído de uma maneira diferente e que aborda temas como o existencialismo e o medo do futuro, ao mesmo tempo que nos mostra uma das cidades mais tradicionais no mundo no quesito de festivais, pois a música é sempre abordada.

Em relação à parte técnica, nitidamente a fotografia, a montagem e a arte do filme são fatores que são decisivos na hora da escolha em assistir ou não tal produção. A câmera é manuseada de maneira tão livre que desafia nossa percepção tão educada para ver planos americanos, onde a personagem é mostrada da cintura para cima, ou simples planos médios ou qualquer que seja a configuração comumente utilizada pelo cinema de massa. A movimentação de câmera que exige muito de todos os atores. Há muita mudança de pontos de vista, incluindo uma suposta quebra da quarta parede, mas que logo é mostrada ser na verdade uma brincadeira feita por Malick. A montagem é rápida de maneira a causar uma sensação de que está à frente da narração, ou seja, os planos mudam antes de terminarmos a percepção e o entendimento total do plano anterior. Isso é acompanhado de imagens belíssimas, que nos fazem ter a sensação que “essa é a hora expositiva do filme”, mas não, todos os momentos são impressionantes.

O filme conta com um elenco incrível. Nomes famosos e talentosos, mas que por uma certa falta de habilidade do roteiro, tem pouquíssimo tempo de tela e tem seus personagens subaproveitados. Rooney Mara é a protagonista e carrega o filme com ela, tem uma atuação simples, porém excelente. Ao mesmo tempo que nos passa inocência, nos passa um olhar penetrante e sexy. Ryan Gosling, recém-saído do sucesso “La La Land” (2016), também toca piano aqui, e tem um personagem tão bom quanto o de Mara. O ator tem um carisma impressionante que cativa a todos a gostarem de seus personagens e bonito ver Gosling atuando. Michael Fassbender é outro bastante seguro e sutil. Com muita mudança de olhar e um senso corporal incrível, ele manda muito bem. Natalie Portman e Cate Blanchett completam o elenco popstar, porém tem pouco tempo de tela e suas histórias são pouco produtivas para a trama.

Dessa maneira, “De canção em canção” é filme encantador visualmente e que aborda vários temas de uma maneira confusa e artística. Em relação às falhas sempre existentes, cito aqui que o filme é construído de uma maneira tão reflexiva e fotograficamente rara que não são todos que se agradarão, a paciência pode faltar em alguns instantes e você precisa estar motivado a receber um banho de planos chocantes com uma pitada de filosofia.

Como já citado, “De canção em canção” é um filme em que você precisa querer assisti-lo, não espere grandes viradas dramáticas ou shows pirotécnicos. O espetáculo é visual e cinematograficamente encantador, apesar de não original, já que o mesmo diretor usou técnicas semelhantes em “Árvore da vida”, é tudo muito belo. Reparem em como o diretor usa muito bem, a luz do sol e o reflexo que a mesma faz sobre a lente, tornando cenas ao ar livre, espetáculos visuais. Vale a pena uma ida ao cinema, uma reflexão filosófica e bem contemporânea sobre aspectos importantes da vida humana.

 

Nota: 9,0

Nota: 7,5

 

Nome Original: Song to Song
Lançamento: 20 de julho de 2017
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Gênero: Drama
Distribuição: Broad Green Pictures

Cinema

“Lady Bird – É hora de voar” Crítica

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Conhecido também como “o típico filme sobre a adolescência de uma americana” que concorre ao Oscar, Lady Bird – Hora de voar, é um longa que fala, sobretudo, de amadurecimento.

Bem dividido em três atos, o filme nos apresenta “Lady Bird”, uma menina de cabelos cor-de-rosa e cheia de personalidade. Logo nos primeiros minutos, nos é provado, de um modo até bastante drástico, aonde ela pode chegar com seus impulsos e atitudes intensas.

No primeiro ato, vemos a personagem em seu cotidiano. Nada muito diferente da habitual vida de uma adolescente classe média dos Estados Unidos. Porém, é nesse primeiro ato que conhecemos, aos poucos, todas as repressões e toda a angústia recolhida na menina. Obrigada a ir para uma escola católica, Lady Bird busca, em todos os seus gestos, desregrar o universo a sua volta – seja fazendo uma escandalosa apresentação no teste para uma peça teatral ou pregando um trote em uma das autoridades da instituição.

E assim, o filme é costurado com sequências rápidas e com um ritmo que nos deixa, por vezes, ofegantes. Tudo acontece de um modo muito intenso – compactuando com o psicológico da personagem – e vivo. Porém, é possível notar que todas essas cores escondem situações difíceis: um pai depressivo, problemas financeiros e, como é muito bem enfatizado pela narrativa – uma delicada relação materna.

“Você gosta de mim?” nossa personagem pergunta à sua mãe. Diálogos profundos aqui não faltam. “Você não acha que amor e atenção são a mesma coisa?”.

Conforme o tempo vai decorrendo, vemos o primeiro ato se fechar, e os núcleos de problemas vão se multiplicando e costurando, aos poucos, o que podemos chamar de as experiências que tornarão Lady Bird uma pessoa mais amadurecida. Entretanto, é longe de ser o objetivo do filme traçar uma jornada do herói bem formatada e redonda. Ela ainda está em construção. O que são mostrados aqui são apenas alguns passos da jornada de uma vida – com seus desejos, erros, conflitos e perdão, seja em relações familiares, amorosas ou de amizade.

Tecnicamente, o filme possuí um visual muito bonito. As paletas de cor são, geralmente, compostas de tons vivos e fortes, como vermelho sangue, azul esmeralda e rosa. Os planos são registrados de ângulos curiosos, e a fotografia parece querer quebrar com regras de composição geralmente observadas em, por exemplo, filmes de massa, como que com o objetivo de – inconscientemente – quebrar uma noção de plano.

A trilha sonora também é muito boa: são observadas músicas da época, além de ritmos que ajudam a compor a atmosfera de cenas em específico, tudo sem exageros. Além da montagem, que tem como característica central sua rapidez e dinamicidade, que ajuda a criar um filme tecnicamente singular e de suma importância.

Assim, Lady Bird se mostra um dos melhores candidatos à estatueta, não só pela sua construção técnica original, mas, sobretudo, por uma trama humana, dotada de atuações fortes e uma rede de temas trabalhados de uma maneira fluída e leve que, no final das contas, formam uma costura complexa e envolvente sobre o amadurecer.

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Cinema

Crítica: Eu, Tonya

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Aqui temos um filme que conta a história de uma competidora de patinação de gelo artística, que vê sua carreira decair, tendo um dia o título de melhor patinadora dos Estados Unidos para um envolvimento criminal e escândalo na mídia.

De cara, temos duas atuações poderosas em questão. Na pele de Tonya Harding, nossa polêmica personagem principal, temos Margot Robbie, brilhantemente transmitindo toda a raiva, frustação, desejo, tristeza e fúria presentes e contidos na patinadora. Interpretando sua agressiva mãe, Allison Janney também consegue, em cada gesto, direcionar nossas emoções para um sentimento de repulsa por sua personagem.

Sustentando-se com base nessas fortes interpretações, o longa costura sua narrativa paralelamente entre cenas em que a história está de fato acontecendo e gravações, em um tom documental, de diversas personagens que participaram da trama, anos após, dando depoimentos e opinando sobre aquilo tudo. Dessa forma, nós já somos induzidos a pensar de tal forma, adotar uma versão da história. Porém, quanto mais cenas do “presente” são rodadas, mas o público é cativado a interpretar os acontecimentos de sua maneira. De início, esse artifício de revezamento entre tipos de narração é fluído. Entretanto, com o passar do tempo isso se torna um pouco maçante, considerando que em alguns casos o ritmo dos fatos e a sucessão de ações são quebrados por uma fala ou outra dos personagens. Assim os planos da narrativa em si nos que engajam a acompanhar cada respiração de Tonya em sua jornada, da mesma forma que os depoimentos nos ajudam a ter uma percepção diferente e resgata detalhes e reflexões da história. Também existem quebras da quarta parede (onde o personagem olha diretamente para tela) que a ajudam a dinamizar o filme.

Apesar dessa dificuldade na progressão e montagem, Eu, Tonya é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Além das atuações verdadeiras e fortes, o uso da câmera, iluminação, maquiagem (a direção de arte é incrivelmente trabalhada, reconstruindo toda uma época, e ajudando a transmitir as emoções ali repassadas, como em um momento específico em que Tonya se vê em uma situação difícil e pesada: a maquiagem acompanha essa atmosfera, com tons escuros e pouca suavidade).

 

O roteiro é forte, e apresenta cenas surpreendentes e que prendem a atenção. Todo o drama vivido por Tonya é sentido, representado e desenvolvido de forma consistente, fazendo-nos torcer cada vez mais para que tudo dê certo. O nível de envolvimento das atrizes com as personagens nos faz perceber como até o tom de voz é calculado para transmitir certa ideia: a ideia de um patriotismo pessimista acerca de si mesmo. Sendo uma mulher que não corresponde as expectativas impostas sobre sua atuação de patinadora artística, o filme também aborda o imenso machismo (tanto na patinação em si quanto nas relações interpessoais de Tonya, principalmente com seu ex-marido) e intenções por trás daquilo que, numa primeira camada, é apenas um esporte.

Dotado de qualidades técnicas incríveis, atuações incontestáveis, um roteiro forte e algumas falhas narrativas, Eu, Tonya deve ser considerado um filme obrigatório para aqueles que se dizem apreciadores da sétima arte ou para qualquer um que deseje explorar o universo dos esportes e da mídia de uma perspectiva mais profunda e real.

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Cinema

A forma da água: Líder em indicações ao Oscar – Crítica

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Liderando com 13 indicações para o Oscar, “A Forma da água”, dirigido Guillermo Del Toro, diretor aclamado por filmes como  “O labirinto do Fauno” e “ A Colina Escarlate”, conta a história de uma zeladora muda, que trabalha para um laboratório secreto de experimentos em Baltimore, e que se apaixonada por uma criatura trazida das águas amazônicas.

O enredo do filme é dotado de uma fantasia já tradicional do diretor – a presença de estranhas criaturas e como elas se relacionam com o mundo. Aqui, porém, temos uma qualidade técnica de última geração, em que cenas debaixo d’água (que pincelam o filme em momentos cativantes, como a aproximação de Elisa, nossa protagonista, com a criatura) dão um visual inovador e admirável ao longa.

Além dais tais cenas subaquáticas, é preciso ressaltar o incrível trabalho de design de produção da equipe, pois aqui a reconstrução dos anos 60 é delicada e certeira. O filme é dotado de cenários detalhados e carinhosamente pensados, como uma lanchonete cheia de tortas caprichadas e chamativas e um belo cinema com suas cortinas de veludo vermelhos. Além disso, existem objetos cenográficos que remetem muito bem à época, como ônibus e roupas, além do cabelo e maquiagem meticulosamente montados (as indicações às categorias de melhor figurino e direção de arte aqui são merecidíssimas).

Ainda falando da parte estética, “A forma da água” é banhada por uma paleta de cores frias muito agradável aos olhos, com seus tons verde-azulados, que combinados com a fotografia precisa criam um ambiente de mistério e sedução, uma improvável combinação que acontece ao longo de todo o filme. A criatura é, sem dúvida, o maior destaque aqui, tanto como um objeto cenográfico muito bem maquiado, como um personagem, por meio de seus movimentos e presença. A relação com Elisa é um dos grandes fatores que tornam o filme uma obra que vale seu tempo de assistir: dois seres que se conectam por motivos de deslocamento, solidão e marginalidade perante à sociedade.

A montagem do filme se mostra suave, e a transição entre planos acontece de uma maneira muito prazerosa de se acompanhar: sem muitos “cortes crus” e quebras de cor.

Falando do roteiro, não há nenhuma história imperdível e imprevisível aqui. Sim, o tema é diferente, a atuação de Sally Hawkins é sólida e bem executada, através de suas expressões e gestos, porém o enredo não dá muitas reviravoltas e não se mostra explorador de muitas facetas – sim, existem alguns subtemas aqui, como o racismo e o patriotismo desmensurado, mas nada que seja explorado por muito tempo em tela.

“A forma da água” se mostra, assim, uma produção digna visualmente, que merece ser aclamada por sua construção estética, mas com uma narrativa um pouco fraca no sentido de nos contar uma história com a intensidade de prender-nos em seus atos, almejar pelo momento seguinte e causar espanto em um desfecho.

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