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Cinema

A Ciambra: Representante Italiano do Oscar – Crítica

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A co-produção brasileira representante da Itália no Oscar conta a história de uma família de ciganos, que tenta se inserir no contexto social do local, mas enfrenta muitas dificuldades nisso.

No início, há uma certa dificuldade em se situar. O tempo quase todo acompanhamos o protagonista Pio em seu dia a dia, cheio de situações que podem chocar, como crianças fumando e uma convivência familiar perturbada por diárias discussões e roubos, e pode-se ter a impressão de que o filme não está traçando claramente seus objetivos.

Ao mesmo tempo que isso acontece, de uma maneira muito rápida e com uma montagem cheia de cortes e transições excessivas, percebemos a originalidade na forma que o longa foi feito. Apesar dos movimentos de câmera serem quase predominantemente acompanhando Pio, por trás de suas costas, são composições e direcionamentos originais, típicos de filmes que se diferenciam e concorrem em premiações como o Oscar.

Com o passar do tempo, a trama vai se esclarecendo, os personagens vão se estabelecendo melhor no tempo e no espaço (salvo as ótimas atuações) e o ritmo fica melhor de se acompanhar: nem muito lento, nem rápido como no início do filme. Aí pode-se entender que é um filme sobre como os imigrantes enfrentam dificuldade de inserção na sociedade italiana, sendo uns mais – a comunidade africana, no caso – do que outro – ciganos.

Tecnicamente, o filme é bom. Fotografia, arte (os planos obedecem uma lógica observável de palheta de cores e organização do cenário, sendo momentos como close-ups no protagonistas acompanhados de tons de azul, que poderiam representar sua tristeza em viver naquela situação), como já citado, bonitos e originais. O problema de ritmo aqui é o maior, sendo que no final, o longa se mostra arrastado, com a impressão de que irá acabar e sempre há um recomeço, que não representa nada de novo para história, pelo menos de maneira mais grosseira.

Talvez a repetição possa servir para enfatizar a situação de imobilidade dessa família, da comunidade e de Pio, que acham, através do crime, uma saída para viver.  A trilha sonora é a melhor parte, ao meu ver, pois utiliza-se de músicas locais contagiantes e que se encaixam muito bem, sendo a última música do filme uma escolha um pouco contraditória, por fugir dessa lógica.

Em sumo, Ciambra cumpre com os requisitos normalmente apresentados para um concorrente ao Oscar, apesar de suas falhas rítmicas e narrativas.

Ficha Técnica: 

Ano de produção: 2017

Diretor: Jonas Carpignano

Duração: 118 minutos

Gênero: Drama

País: Itália/França

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Cinema

Crítica: Eu, Tonya

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Aqui temos um filme que conta a história de uma competidora de patinação de gelo artística, que vê sua carreira decair, tendo um dia o título de melhor patinadora dos Estados Unidos para um envolvimento criminal e escândalo na mídia.

De cara, temos duas atuações poderosas em questão. Na pele de Tonya Harding, nossa polêmica personagem principal, temos Margot Robbie, brilhantemente transmitindo toda a raiva, frustação, desejo, tristeza e fúria presentes e contidos na patinadora. Interpretando sua agressiva mãe, Allison Janney também consegue, em cada gesto, direcionar nossas emoções para um sentimento de repulsa por sua personagem.

Sustentando-se com base nessas fortes interpretações, o longa costura sua narrativa paralelamente entre cenas em que a história está de fato acontecendo e gravações, em um tom documental, de diversas personagens que participaram da trama, anos após, dando depoimentos e opinando sobre aquilo tudo. Dessa forma, nós já somos induzidos a pensar de tal forma, adotar uma versão da história. Porém, quanto mais cenas do “presente” são rodadas, mas o público é cativado a interpretar os acontecimentos de sua maneira. De início, esse artifício de revezamento entre tipos de narração é fluído. Entretanto, com o passar do tempo isso se torna um pouco maçante, considerando que em alguns casos o ritmo dos fatos e a sucessão de ações são quebrados por uma fala ou outra dos personagens. Assim os planos da narrativa em si nos que engajam a acompanhar cada respiração de Tonya em sua jornada, da mesma forma que os depoimentos nos ajudam a ter uma percepção diferente e resgata detalhes e reflexões da história. Também existem quebras da quarta parede (onde o personagem olha diretamente para tela) que a ajudam a dinamizar o filme.

Apesar dessa dificuldade na progressão e montagem, Eu, Tonya é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Além das atuações verdadeiras e fortes, o uso da câmera, iluminação, maquiagem (a direção de arte é incrivelmente trabalhada, reconstruindo toda uma época, e ajudando a transmitir as emoções ali repassadas, como em um momento específico em que Tonya se vê em uma situação difícil e pesada: a maquiagem acompanha essa atmosfera, com tons escuros e pouca suavidade).

 

O roteiro é forte, e apresenta cenas surpreendentes e que prendem a atenção. Todo o drama vivido por Tonya é sentido, representado e desenvolvido de forma consistente, fazendo-nos torcer cada vez mais para que tudo dê certo. O nível de envolvimento das atrizes com as personagens nos faz perceber como até o tom de voz é calculado para transmitir certa ideia: a ideia de um patriotismo pessimista acerca de si mesmo. Sendo uma mulher que não corresponde as expectativas impostas sobre sua atuação de patinadora artística, o filme também aborda o imenso machismo (tanto na patinação em si quanto nas relações interpessoais de Tonya, principalmente com seu ex-marido) e intenções por trás daquilo que, numa primeira camada, é apenas um esporte.

Dotado de qualidades técnicas incríveis, atuações incontestáveis, um roteiro forte e algumas falhas narrativas, Eu, Tonya deve ser considerado um filme obrigatório para aqueles que se dizem apreciadores da sétima arte ou para qualquer um que deseje explorar o universo dos esportes e da mídia de uma perspectiva mais profunda e real.

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Cinema

A forma da água: Líder em indicações ao Oscar – Crítica

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Liderando com 13 indicações para o Oscar, “A Forma da água”, dirigido Guillermo Del Toro, diretor aclamado por filmes como  “O labirinto do Fauno” e “ A Colina Escarlate”, conta a história de uma zeladora muda, que trabalha para um laboratório secreto de experimentos em Baltimore, e que se apaixonada por uma criatura trazida das águas amazônicas.

O enredo do filme é dotado de uma fantasia já tradicional do diretor – a presença de estranhas criaturas e como elas se relacionam com o mundo. Aqui, porém, temos uma qualidade técnica de última geração, em que cenas debaixo d’água (que pincelam o filme em momentos cativantes, como a aproximação de Elisa, nossa protagonista, com a criatura) dão um visual inovador e admirável ao longa.

Além dais tais cenas subaquáticas, é preciso ressaltar o incrível trabalho de design de produção da equipe, pois aqui a reconstrução dos anos 60 é delicada e certeira. O filme é dotado de cenários detalhados e carinhosamente pensados, como uma lanchonete cheia de tortas caprichadas e chamativas e um belo cinema com suas cortinas de veludo vermelhos. Além disso, existem objetos cenográficos que remetem muito bem à época, como ônibus e roupas, além do cabelo e maquiagem meticulosamente montados (as indicações às categorias de melhor figurino e direção de arte aqui são merecidíssimas).

Ainda falando da parte estética, “A forma da água” é banhada por uma paleta de cores frias muito agradável aos olhos, com seus tons verde-azulados, que combinados com a fotografia precisa criam um ambiente de mistério e sedução, uma improvável combinação que acontece ao longo de todo o filme. A criatura é, sem dúvida, o maior destaque aqui, tanto como um objeto cenográfico muito bem maquiado, como um personagem, por meio de seus movimentos e presença. A relação com Elisa é um dos grandes fatores que tornam o filme uma obra que vale seu tempo de assistir: dois seres que se conectam por motivos de deslocamento, solidão e marginalidade perante à sociedade.

A montagem do filme se mostra suave, e a transição entre planos acontece de uma maneira muito prazerosa de se acompanhar: sem muitos “cortes crus” e quebras de cor.

Falando do roteiro, não há nenhuma história imperdível e imprevisível aqui. Sim, o tema é diferente, a atuação de Sally Hawkins é sólida e bem executada, através de suas expressões e gestos, porém o enredo não dá muitas reviravoltas e não se mostra explorador de muitas facetas – sim, existem alguns subtemas aqui, como o racismo e o patriotismo desmensurado, mas nada que seja explorado por muito tempo em tela.

“A forma da água” se mostra, assim, uma produção digna visualmente, que merece ser aclamada por sua construção estética, mas com uma narrativa um pouco fraca no sentido de nos contar uma história com a intensidade de prender-nos em seus atos, almejar pelo momento seguinte e causar espanto em um desfecho.

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Cinema

Indicados ao OSCAR: “Me chame pelo seu nome” – Crítica

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A co-produção brasileira, sendo um dos filmes – senão o mais – alternativos dentro da categoria dos melhores filmes, “Me chame pelo seu nome” é um longa dotado de charme, e, pode-se dizer, uma pitada de existencialismo.

O filme conta a história de Elio, um adolescente que vive um amor de verão, em meio a férias em uma casa no norte da Itália. Pode-se dizer que o filme é esteticamente muito bonito, de uma composição suave aos olhos: figurinos charmosos dos anos oitenta, ambientação sutil, sempre ao sol e em meio a uma natureza que relaxa, fazendo querer viver para sempre nesse estádio de ócio e prazer. Toda a rotina da família de Elio, que recebe, a cada verão, um acadêmico, é quebrada com a chegada de Oliver, que chama a atenção de todos: seja por sua beleza clássica ou por sua inteligência acadêmica afiada.

A construção da aproximação entre os personagens principais parece ser nada mais do que uma rotina de férias. Em meio a passeios, leituras, banhos de rio e festas, Elio e Oliver começam a tecer aquilo que motiva a trama: um romance aparentemente proibido e improvável. Aqui noto um modo de viver um tanto quanto existencialista, ao passo de que não parece ter um objetivo a ser focado: cada passo é um momento de vida e uma ação a ser aproveitada ao máximo.

Apesar do ritmo do filme ser positivo no quesito de fugir do padrão, em que os acontecimentos se passam de uma maneira quase que despreocupada com o andamento da narrativa, o roteiro se mostra, nesse quesito, um tanto quanto extenso. Alguns ciclos são repetitivos e cansativos para quem assiste. Demasiadas são as voltas em silêncio, os sorrisos contidos e olhares trocados entre eles. Isso pode ser encarado como algo poético (sim, o filme foi por muitos considerado como uma obra prima), porém, para certa parte do público, pode parecer uma espécie de extensão desnecessária, até que um desfecho realmente se mostre a acontecer.

Em relação à trilha sonora, em geral se encaixa muito bem com a produção, sempre acompanhada de uma fotografia e iluminação que buscam criar esse ambiente de verão italiano e vintage. É notada a presença de planos sequência corajosos, longos e com movimentos de câmera que não buscam esconder o que realmente se passa.

Em geral, Me chame pelo seu nome é, sim, um bom filme, porém que requer um olhar mais atencioso e paciente, no quesito de desfrutar da história da maneira que nos é dada: como uma produção delicada, nostálgica e que se costura sem nenhuma pressa de satisfação imediata.

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